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Contos e Encantos | Contos e Encantos
Escrito por Nilza Amaral   

A mesa está vazia, ali, convidativa, à margem do rio urbano, a avenida de asfalto negro. É domingo ali na rua Haddock Lobo,  mesmo assim as nuvens não deixam de caminhar no céu. Sento-me porque o vermelho das almofadas das cadeiras de palha parece-me quente. Passo a fazer parte dos observadores da vida, hoje que estou só, falta a caçamba a corda pende solta. Vejo rostos pálidos de sorrisos ocultos passando rapidamente e desaparecendo atrás das torres de pedras na paisagem nua de verde.  “Depressa, o jogo vai começar, venha encostar teu corpo junto ao meu, que sinto saudade.” A tela iluminada brilhava no escuro e ali naquela janela mágica víamos passar o primeiro tempo, o segundo tempo... Perambulo pelos subterrâneos de meu corpo e nada encontro a não ser conchas vazias de caramujos. O sinal vermelho convida à infração que já não cometerei, passou o tempo da irresponsabilidade da juventude. Quando chegou a carta? Não ouso enfrentar a data, basta o conteúdo que me diz “... tu já não és rosa fresca”, sei disso, agora florescem saudades. O exterior do dia claro, brilhante, destoa de meu crepúsculo interior. Por que há dias tão belos? “Vamos a Paris, dizias. “Vamos”, eu respondia. E lá sentávamos nos bistrôs, tu, eu e a multidão, a Torre de Babel. Pedias um americano, eu um continental, tinha fome, muita fome. Ríamos, tu me falavas de amor, tímido, jamais declarando, só sugerindo pelo roçar do rosto, pelo toque. O medo sempre me perseguindo: medo de morrer de amor por ti, medo da pergunta sem resposta. A memória cruel insiste, alimenta-se de minha ex-vida. Eras jovem, eu era jovem, até ontem. Infelizmente o planeta não parou de girar.

Crianças pedem-me um trocado. Transeuntes diários, sem endereço fixo. Dou moedas, tento parecer caridosa. Planos de vida, amor eterno, nunca te esquecerei, nunca me abandonarás, nunca envelheceremos, nunca - é tanto tempo... Vejo teus jeans, teu suéter cinza que levei meses para tricotar - mangas compridas demais. “Queres uma jaqueta de couro?”, perguntavas na barraca de feira do domingo perdido no tempo. Risos. “Tu serás sempre uma menina”.

O tempo escoa pelos ralos da existência, a juventude vai com o tempo, voa!

- Mais alguma coisa, senhora?

“Senhora, senhora, serei eu?“. Que obstinação em querer me fazer lembrar que o tempo passou. Odeio o homem da bandeja, não lhe darei gorjeta.

Cheiro de hora de almoço. Ruas vazias de funcionários, domingo, devem estar ser aconchegando nos sofás. Na banca de flores, repletas de cores, defronte ao café o florista acaricia as flores. Sente com os dedos grossos e feios a textura da pétala, extasia-se com o prazer do tato. Tem nas mãos uma açucena. Penso que é cego, mas percebo que está cego de prazer. Quer adivinhar o perfil de linhas doces, a perfeição do talhe, a flexibilidade, o corpo cósmico. Penetra o interior da flor com os dedos, percebe o duro pistilo, retira o dedo, aperta o caule com a mão em concha. Paixão pelo efêmero ser? Leva a açucena ao rosto, sente a textura virgem, beija-a satisfeito e a deposita no balde juntamente com as outras, já não tão virgem mais ainda fresca. É interrompido por fregueses que querem flores para o cemitério da Consolação, talvez? Ou para aniversários de última hora?
Café senhora? “Peças, peças, sempre pedes tudo e nada comes”, dizias sem tom de reprimenda.

- Sim, café.

- Com creme?

A insistência. Por que ele invade meu campo de memórias, capta o meu instante de doçura, interrompe o meu amor platônico com o florista? Percebo que é primavera, o sol é amarelo, ouço o choro de um pistão no ar. “- Queres ouvir jazz nos subterrâneos de Berlim?” Eu, tu, dolentes, ébrios de ritmo e paixão, entregues ao desejo único de sempre, sempre, estarmos juntos. - Com creme, senhora? O garção eleva o volume da voz. - Não, sem creme, sem açúcar, sem nada, só café. O homem da bandeja desaparece novamente e deixa-me com as remotas lembranças. “Te quero assim, jovem”. Até ontem fui jovem, hoje já não o sou. Abro a bolsa para pegar o cigarro e vejo a foto - a imagem congelada de um segundo de felicidade. Atravesso a rua. O vendedor de flores sai do meu campo de visão. Cheiro de cemitério. Flores dentro dos baldes com água. Detrás das grandes palmas, o acariciador: feio, rude, mãos grossas, barriga grande. - Quer açucenas? Estão frescas e firmes.

“Queres rosa? Tome esta - vermelho-paixão”. “Não, não quero flores, quero filhos”. “Ora, filhos, e para quê?” O sempre não existe. O gato esconde-se sob a bancada de flores, olhos arregalados, fixos em mim.

Quero a açucena, digo, “quero sentir a juventude da flor”, penso. “Quero continuar a esperar por ti na curva da minha desilusão”. O automóvel é meu esconderijo. Acaricio a flor, às escondidas, criminosa. Descubro a meiguice da pétala aveludada, sinto o interior morno e firme. Dilacero-a, rasgo-a, atiro todas na sarjeta. Têm o que já não posso ter. Escurece. Mais uma lua aparece. Esta é nova, grande, luminosa no céu azul marinho. Não impedirá, entretanto que depois da primavera chegue o outono. Ligo o rádio: frente fria, vento. Nada importa, eu continuarei te esperando no mesmo lugar embora saiba que o telefone continuará mudo e nunca mais vou te ouvir gritar: “Saias logo do banho, estou sedento de ti”. O apartamento rescende a fim de romance, o vidro do porta-retrato é poeira de brilho sobre a foto do casamento: tu, um lírio rijo, eu uma açucena virgem. O espelho desmente a foto - lá está o reflexo de uma senhora de pele rústica. Limpo os cacos, rasgo a foto, deixo o espaço livre para a flor que me substituirá. Bato a porta, ouço o rumor de anos de juventude caindo por terra. Parece que só se passou um dia. No pequeno apartamento que agora será o meu canteiro, ligo a televisão: uma mulher atira no homem que ama.

A lua lá fora ainda é nova. A carta jaz sob a mesinha inglesa.



Tags: Nilza Amaral  Escritora  Contos  Tempo  Café  Creme  Paris  
 

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