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Escrito por Isabel Vasconcelos   

 

Elis é uma das maiores cantoras do século XX. Para mim, é a maior. Muita gente pode achar que é a Piaf, ou a Ella Fitzgerald, ou a Kiri Te Kanawa, ou a minha também querida Dinah Washington. Gosto de Gal, de Bethânia, de Nara, de Nana Caymmi, e até da irreverente Rita Lee. Mas, me perdoem, pra mim, ninguém, ninguém mesmo pode se igualar à voz e à interpretação de Elis.

Quando, há alguns anos, ouvi pela primeira vez a Maria Rita, filha de Elis, cantando, chorei como criança. Maria Rita tem a voz da mãe, por um milagre da genética. Mas a genética não faz tudo e, embora eu goste muito das interpretações de Maria Rita... As de Elis são únicas e, todas, maravilhosas.

Elis morreu dia 19 de janeiro de 1982, às 10 horas da manhã. Às 10 e meia, eu já sabia. Eu era redatora numa agência de publicidade e, naquele tempo, a gente nem tinha computador. Por isso os papéis que passavam pela minha máquina de escrever, naquele dia, saíam todos molhados pelas minhas lágrimas.

Elis era uma pessoa difícil, de temperamento explosivo, às vezes beirando a grosseria. Mas e daí? O que é um temperamento difícil diante da genialidade, da capacidade de cantar e interpretar como mais ninguém?

Ela nasceu em Porto Alegre, em 17 de março de 1945.

Com apenas 11 anos de idade já cantava no “Clube do Guri”, programa da Rádio Farroupilha da sua cidade. Com 14 anos assinou seu primeiro contrato profissional na Rádio Gaúcha. Com 15, gravou seu primeiro disco: um compacto simples (pra quem não sabe, compacto era um vinil um pouco maiorzinho que um CD e tinha uma música de cada lado). O primeiro LP (vinil grandão, com média de 12 músicas) aconteceu aos 16, em 1961. Chamava-se Viva a Brotolândia e a gravadora Continental queria fazer dela a rival de Celly Campello. Mas a praia da Elis seria bem outra.

Elis tinha 19 anos quando chegou, com seu pai, ao Rio de Janeiro, disposta a tentar uma carreira nacional.

Um contrato com a TV Rio a colocou no programa Noites de Gala, que tinha outros estreantes, Simonal e Jorge Benjor, e o consagrado Trio Iraquitan. Cantava também no badalado “Beco Das Garrafas”.

Em abril de 1965, ela encantou o Brasil, ao vencer o Primeiro Festival de Música Brasileira da TV Record cantando “Arrastão” de Edu Lobo e Vinícius de Moraes.

Daí para frente, só sucesso. Logo surgiu a parceria com Jair Rodrigues e os dois comandaram um programa de TV que fez história: “O Fino da Bossa”.

Vieram os discos, vieram os festivais, vieram as apresentações internacionais, sucesso na França e em Portugal.

Elis virou a cantora número 1 do Brasil.

Nas gravadoras, impunha, podia impor, pois vendia muito. E, se impondo, lançou novatos que, sem ela, talvez não tivessem grande chance. Ivan Lins. Milton Nascimento. Chico Buarque. Gilberto Gil. Caetano Veloso. Todos tiveram interpretações inesquecíveis na voz de Elis.

Ela se casou, no fim dos anos 60, com Ronaldo Bôscoli e com ele teve seu primeiro filho: João Marcelo Boscôli, hoje diretor da produtora Trama.

Nos palcos, teve outros parceiros marcantes, além de Jair Rodrigues. Brilhou ao lado de Miéle. E, na França, no festival de Montreux, viveu um dos melhores momentos de sua vida profissional, com o genial Hermeto Paschoal.

Com Tom Jobim, em 1974, nos Estados Unidos, gravou um dos melhores discos da MPB, onde está uma faixa tocada até hoje: “Águas de Março”.

Na década de 70, gravou todos os compositores importantes da música brasileira.

Antológico também é o programa “Ensaio” que ela gravou para a TV Cultura em 1973, acompanhada, ao piano, por César Camargo Mariano, que seria, mais tarde, o seu segundo marido. Com César, Elis teve dois filhos. Ambos, hoje, cantores: Pedro Mariano e Maria Rita.

Antológicos também os seus dois penúltimos shows: Falso Brilhante e Saudades do Brasil.

A vida de Elis, ao lado de César e dos filhos, em sua casa em São Paulo, no bairro da Cantareira, parece ter sido a sua fase mais feliz. Pelo menos ela deixou transparecer isso em sua entrevista à Marília Gabriela, no programa TV Mulher, da Rede Globo, programa de estréia em 1980, quando disse que a última coisa que queria era sair daquela casa.

Dois anos depois, morando num apartamento, separada de César, namorando um advogado, Elis morreu. Supostamente de uma overdose de cocaína, ela, que, no meio artístico, era conhecida por ser “careta” (gíria que classificava quem não usava drogas).

Foi velada no Teatro Bandeirantes e enterrada com uma camiseta da bandeira brasileira onde, no lugar de Ordem e Progresso, estava escrito seu nome. Uma multidão a acompanhou. Uma multidão e as minhas lágrimas. As mesmas que, neste momento, 28 anos depois de sua morte, ainda inundam meus olhos, quando falo nela.

A música brasileira nunca mais foi a mesma depois da morte de Elis. Falta, até hoje, quem se disponha a lutar pelos novos compositores, como ela lutou. Falta, até hoje, quem se disponha a sentir a riqueza da nossa música como ela sentiu. E falta a sua maravilhosa interpretação.

Saudades de Elis. Sempre.

 

 

 

Fotos: Isabel Vasconcelos



Tags: Interprete  MPB  Fino da Bossa  
 

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